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Preservar o
existente, recuperar o possível
Em: O Centro Antigo de Fortaleza (1997)
Auto Filho
A urbanização acelerada do chamado
"Terceiro Mundo" tem sido, ao longo deste século, um fenômeno extremamente
deletério. Já em 1929, em sua viajem a Argentina, Le Corbisier, refletindo sobre
o assunto, sentenciou, em famosa conferência "Não existe nada em Buenos Aires,
exceto o erro". É bem verdade que a capital portenha soube reagir ao protesto do
arquiteto e, atualmente, conserva rico e belo patrimônio urbanístico para
desfrute das atuais e futuras gerações. No entanto, o mesmo não ocorreu em outros
lugares. Ainda hoje parece pesar sobre a maioria das metrópoles do mundo
subdesenvolvido esta maldição: só há perdurabilidade do erro.
Em Fortaleza tem sido assim. Os riachos de nossa história, como o Pajeú, foram
transformados em esgotos. Os rios são aprisionados em pequenas calhas, cercadas
de favelas e poluídos pelos esgotos. As lagoas são aterradas pela especulação
imobiliária ou transformadas em reservatórios de lixo e dejetos, com o
consentimento ou silêncio do poder público.
A devastação de nossa cidade não se limita aos crimes contra o meio ambiente. A
destruição do seu pequeno mas bonito patrimônio arquitetônico, já denunciada na
década de sessenta por Liberal Castro, fica dramaticamente exposta nessa mostra
seletiva sobre o centro antigo*. A maioria das edificações mostradas nas fotos
foi derrubada para dar lugar a prédios comerciais, e outras tantas, como
registra Blanchard Girão, em sua elegante crônica aqui publicada, permanecem
encobertas por "grotescos tapumes ou biombos modernosos" das lojas. Uma pequena
parte ainda permanece em pé, graças à resistência dos materiais, mas abandonada
pela incúria pública ou privada.
Nossa intenção maior é convocar a cidadania para reagir a esse deplorável estado
das coisas, na esperança de reverter a tendência dessa urbanização destrutiva em
marcha, produto da anárquica lógica da acumulação capitalista. A esperança não é
vã, já que em outras metrópoles do mundo, inclusive do Brasil, os movimentos
citadinos têm conseguido resultados animadores, seja na esfera da preservação,
seja na esfera da recuperação dos patrimônios naturais e construídos, pondo-os à
disposição da coletividade como bens voltados para a melhoria da qualidade de
vida presente e futura das cidades.
Se a lógica do capital tem mantido a hegemonia na condução da política urbana de
Fortaleza, também é verdade que uma contra-lógica, que tenho denominado
pedagogicamente de lógica da cidadania, começa a ganhar expressão pública,
influenciando algumas ações do governo (como mostra Blanchard Girão) e da
própria corporação empresarial (Como é o caso do Projeto de Revitalização da
CDL).
A formulação desse projeto de intervenção para o Centro de FOrtaleza exige, como
pré-condição inarredável, a mais ampla e democrática participação de todos os
interessados numa efetiva prática cidadã no terreno da política urbana. Combina
a militância ativa dos sindicalistas e o conhecimento científico-técnico da
intelectualidade independente, hoje abrigada nas universidades, institutos de
pesquisa e na imprensa. Envolve necessariamente uma inteligente política de
parceria entre todos os agentes do processo sócio-urbano, do parlamento e do
executivo.
A melhor política de intervenção urbana para o Centro de Fortaleza é uma
combinatória de políticas urbanas. É preciso preservar o patrimônio existente,
proporcionando-lhe as condições indispensáveis para a retomada de sua função
tradicional ou desfrute estético por todos. Em alguns casos, redefinindo seu
uso, noutros, intensificando a ocupação lúdico-cultural ou dotando-os de
condições para funcionar como espaços de celebração pública. É preciso
recuperar, e recuperar dentro de um plano que considere a totalidade da cidade,
muitos dos equipamentos e edificações semi-destruídos, redesenhando sa geografia
do centro com ousadia e criatividade, sempre com base no interesse público, no
respeito ao meio ambiente e na preservação da memória.
Nesse sentido, algumas ações se destacam como prioritárias e imediatas: a
preservação do Cine São Luiz**, do Excelsior Hotel (como hotel residência), do
Museu das Secas *** (com sua abertura à visitação pública), do prédio da
Secretaria de Segurança (com nova finalidade), do prédio da 10ª Região Militar
(Como Museu da Cidade); a recuperação do Prédio da Sociedade Artística Cearense
(e sua entrega a outra entidade operária), do Teatro da antiga Emcetur (hoje
fechado), do Prédio da Santa Casa e do próprio Forte de Nossa Senhora da
Assunção (voltando ao seu desenho original); a construção da Avenida Parque
Pajeú (com retirada da central atacadista do centro); a ligação do centro ao
mar, com a transformação da Estação João Felipe e seus galpões num sistema de
equipamentos culturais; a ligação entre as praças José de Alencar e Lagoinha
(com a reordenação e dignificação do atual comércio ambulante ali mal
instalado); a criação de um programa de moradia com a adaptação dos muitos
prédios e sobrados hoje abandonados.
Nunca é demais enfatizar: isso só será possível se a cidadania resolver tomar em
suas mãos o destino da própria cidade. O ponto de partida é criar uma
consciência preservacionista. Esperamos que esta exposição de fotografias sobre
o Centro antigo* funcione como um grito de alerta e ajude a sensibilizar mentes
e corações para a necessidade e a urgência desse desiderato.
* Exposição "O Centro Antigo de Fortaleza: Álbum de fotografias"
realizada em 1997 por Nirez.
** O Cine são Luiz foi adquirido pelo SESC (agora SESC Luiz Severiano Ribeiro),
e atualmente mantém a programação de cinema.
*** O Museu das Secas foi tombado pelo IPHAN e encontra-se em reformas.